1#SOMSOCOSMOS  english text below

CRI, por Fronte Violeta, gravado na residência.  

 

CRI, by Fronte Violeta, recorded at the residency.

#1 SOMSOCOSMOS

SOMSOCOSMOS é uma residência que abraça a produção sonora em campo expandido, propondo um encontro da música com a arte sonora. Sua primeira edição teve duração de dez dias e contou com a participação de 16 residentes. Estes vieram de diversas regiões do Brasil e da Argentina. Os residentes tiveram à disposição uma série de instrumentos musicais, assim como acesso ao estúdio de gravação 16 canais pilotado por Ricardo Mansur, Laura Zimmerman e Benoit Bellet, montada por LC Varella. Disponibilizamos também microfones para a gravação de sons em ambientes externos (microfones direcionais) e piezos (microfones de contato). 

O grupo resultou simbiótico e produtivo, apesar de diferenças de background e prática, gerando uma série de vivências e trabalhos como instalações sonoras, musicas gravadas, workshops, etc. SOMSOCOSMOS ainda reverbera, através de parcerias e colaborações nascidas na residência, que seguem vivas. Dentre os resultados contamos dois EPs lançados, diversas tracks mixadas e divulgadas em nosso soundcloud e uma publicação. Estão em finalização alguns tracks, e um curta-metragem autoral. No segundo semestre de 2018 os participantes realizarão apresentações no SESC de Ribeirão Preto.

Entre as atividades coletivas pensadas e organizadas junto aos residentes, destacamos:

- Improvisações livres e dirigidas (partituras fílmicas, exercícios de improvisação musical, jam sessions)

- Workshops: A voz animal (oficina de experimentação vocal); Iniciação ao software Ableton Live

- Grupo de estudos sobre John Cage

- Pratica de Yoga

 

Entre os resultados da residência destacam-se:

- Gravações musicais

- Gravação de improvisos coletivos (formando-se o grupo Escória do Basalto)

- Criação de obras: instalação escultórico-sonora (coletivo Gmbiarr), partitura para performance (Alexandre Fenerich e Veronica Daniela Cerrotta)

- Evento no espaço SARACURA no Rio de Janeiro, com projeções de videos feitos na residencia, show do duo Fronte Violeta, de Pedro Diaz, e de Matheus Vinhal e Vitor Wutzki, jam session coletiva e aberta ao público, escuta de áudios gravados, projeção de fotografias da residente Adriana Amaral com audio composto por Laura Zimmerman e Ricardo Mansur, projeção de registros da performance de Vania Medeiros

- Produção de textos sobre a residencia pela curadora convidada Paula Borghi e pelo poeta sonoro/residente Matheus Vinhal 

- Filmagens realizadas para documentário sobre a história do som eletrônico no Brasil, pelo cineasta paulista Denis Giacobellis

- Performance "Conversas sobre metafísicas canibais" de Vania Medeiros, que resultou numa publicação da artista

#1 SOMSOCOSMOS  

The SOMSOCOSMOS residency embraces the audible universe in an expanded field. It is adressed mainly to musicians and sound artists, but also welcomes applications from scholars, therapeuts, filmmakers, etc. 

 

Its first edition happened in June 2017, and hosted 16 residents. Among them 1 guest curator, 3 invited musicians and 1 artist that received a grant, having the others being selected through an open call and payed a participation fee.  

 

SOMSOCOSMOS offers a professional sound recording structure, being supported by LC Varella (who recorded the soundtrack of the film "City of God"), whose equipment can record up to 16 channels separetly. The residents are assisted by two sound engineers, that command the studio recordings. We also have musical instruments and, and in our first edition, special outdoor/film recording microphones available.

 

The first SOMSOCOSMOS hosted a very heterogenous groups in terms of practice and background. The result was a very intense experience, rich in exchanges and recordings. The practices included sculptural sound instalations, tracks recorded, musical collaborations, workshops and jam sessions, as well as Yoga and coffee harvesting. The residency is still reverberating, almost one year later, as collaborations are being pursued, audios recorded are still being mixed, tracks still being released, etc.  Among the results are 2 EPs launched, tracks uploaded on the internet and a publication released. The residents have being invited to perform at the SESC Ribeirão Preto in September 2018.

Residentes selecionados 

Residents selected 

Adriana Amaral

Alexandre Fenerich

Gmbiarr coletivo sonoro 

Matheus Vinhal

Pedro Diaz

Vania Medeiros

Veronica Daniela Cerrotta

Vitor Wutzki

Bolsista

Grant

Pedro Keppler

Convidados

Guests

Anelena Toku

Carla Boregas

Paula Borghi

Gravação de som

Sound engineers 

Ricardo Mansur

Laura Zimmerman

Benoit Bellet                               

Curadoria

Curation                                  

Antonio Sobral

Marina Marchesan

Produção

Production

Amanda Costa

Antonio Sobral

conversas sobre metafísicas canibais,

publicação do trabalho da artista baiana Vania Medeiros, desenvolvido  na Somsocomsos

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Um breve relato do som do cosmos 

Paula Borghi 

Conversando com Benoît Bellet, comentei que parecia estar no meu segundo dia de um mesmo dia. Até o fim daquela noite, a maioria dos residentes seguiria para a terceira jornada. Já eu, talvez por ter chegado no meio da residência, me retirei no meu quarto e dormi o cansaço de dois em um. Pautadas por esse ritmo de camadas sobrepostas em um mesmo instante, as dinâmicas na Fazenda São João vibram do nascer do sol ao cair da lua. Obviamente, não saberia dizer com palavras fidedignas todos os acontecimentos, então me limito a compartilhar um pouco dessa experiência de 4 dias vividos como se fossem 192 horas, sob a ótica do estrangeiro em meio a uma imersão cósmica. E, por se tratar apenas de um par de olhos, já de início peço desculpas pela superficialidade de até onde pude alcançar. É difícil ter foco quando se está vagando entre tantas estrelas. 

Para começar, gostaria de situar o que está acontecendo no momento em que começo a escrever este texto, pois seria impossível escrevê-lo em silencio, já que este, aqui, não existe. São aproximadamente oito horas da noite do dia 10 de junho e encontro-me no ateliê do Antonio Sobral, que agora se configura como espaço expositivo. Amanda Costa, Marina Marchesan, Fernanda Pequeno, Antonio e eu montamos uma exposição com seus desenhos mais recentes, face a face com colagens, cadernos e zines de um outro período de sua produção; bem perto e longe do momento em que ele se encontra agora. Enquanto isso, Alexandre Fenerich e Carla Boregas tocam para aquecer as flores que colorem o jardim de inverno. Parece o som do céu, como se as estrelas comunicassem com a natureza terrestre através da música. Este é o espírito desta residência, impossível não se deixar levar pelas cadências que cruzam a noite.

 

Momentos depois, Pedro Diaz apresentou uma prática musical dentro da Capela, a partir de uma espécie de nave espacial que atende pelo nome Hang Drum, com a parceria de Anelena, Toku, Matheus Vinhal e Victor Wutzki. Lembrou uma conversa em voz alta de muitas espiritualidades, em diálogo com a criação artística e a vitalidade das espécies, uma forma de mediação sonora entre a ideia de cultura e a origem das coisas. Na mesma frequência, Vania Medeiros propôs uma atividade a ser realizada ao longo dos dias, convidando os residentes a desenharem de observação a natureza, enquanto ela lia em voz alta trechos do livro “Metafísicas Canibais”, de Eduardo Viveiros de Castro. 

Enquanto isso, o coletivo Gmbiarr fez uma dinâmica coletiva de escuta e conversa com(o) pássaros, a partir de uma caixa contendo 43 apitos que reproduzem com exatidão o cantar de 43 espécies distintas de pássaros. A ação consistia em escolher um apito, camuflar-se na floresta e comunicar-se desde uma outra perspectiva. Havia um sentimento de adentrar “imagens sonoras” produzidas pelo homem e pela natureza.

 

Adriana Amaral desenvolveu uma série de fotografias e um áudio para falar sobre a vida da casa, sob o olhar de um fantasma que se manifesta enquanto todos dormem. Um trabalho que dá escuta a uma construção centenária que respira e transpira, de uma morada que hoje é uma Residência Artística, mas que já foi Casa Grande. Em paralelo, o coletivo Gmbiarr deu voz ao antigo maquinário de beneficiamento do café da fazenda, até então abandonado, construindo uma espécie de vocabulário sonoro com objetos lá encontrados. O coletivo criou uma instalação que ativou esse local e devolveu vida ao que antes era puro esquecimento.

 

Estes são alguns dos exemplos de vivência que pude acompanhar, alguns com maior proximidade do que outros. Porém, foram nas noitadas de Jam session da Escória do Basalto que o céu se iluminava, literalmente. Em uma dessas noites, Alexandre colocou um telescópio voltado para a lua cheia, enquanto dentro do estúdio era projetado “O botão de nasca”, de Patricio Guzmán. E claro, a música rolava solta, indo para todos os lados, passando por todos os tons e sem a preocupação de tropeçar ou cair de bunda. Era a liberdade de experimentar na companhia do outro, sem julgamentos ou metas, e, ao mesmo tempo, com o amparo de saber que tudo estava sendo devidamente gravado pelos anjos Ricardo Mansur, Laura Zimmermann e Benoit Bellet.

 

Há uma sintonia entre os residentes, e, por mais particulares que sejam as pesquisas de cada um, existe uma ressonância que os une. Vale aqui uma saudação à equipe de seleção, que conseguiu reunir com excelência um grupo intergaláctico, em torno de um mesmo eixo. Entendo que quanto mais o SOMSOCOSMOS se move, mais ele se expande. Me arrisco a dizer que se esse grupo de residentes permanecesse junto por mais dez dias, o universo teria um novo planeta em órbita.  

ESSE SOM

Matheus Vinhal

Chego com a noite. Os faróis do carro que me leva iluminam cavalos no caminho de terra, bichos soltos. Poeira sobe: no céu vermelho, é meia-lua inteira. Coisas raras crescem. O breu já não deixa ver lá fora, só há o interior dessa casa, grande, e seus corredores. Cá dentro, me perco. Antônio passa, abrindo portas. Um lobo de pelúcia em cima do armário uiva para o teto do meu quarto. Na varanda, essas pessoas jantam. Não sei que bichos agudos discutem no escuro.

Pouco mais tarde, como saudação, três sínteses banham de som a capela. Carla acende duas velas (uma se apaga). Numa sala cheia de livros cheios de palavras – estúdio – encontro, escuto o nome de quem fala, digo o meu, e que escuto.

É de manhã: caminhada. Pés na horta, na mão um graveto, estalo a máquina de secar café, um monstro dorme. Ao lado, há um lago: vários sapos, pássaros, possibilidades. Já no estábulo, há dois cavalos: um fulo, outro resignado. Da janela de suas celas, vê-se uma plataforma, um palco. No topo do morro, diviso vários vales, terra que some. No chão, o planeta, uma inscrição. Carrapatos sobem-me as canelas. Noutra colina: silêncio. Colhemos mixirica.

Ouve-se por aí que o universo, essa massa de ondas viajando no silêncio do vazio cósmico, formou-se de duas forças primordiais: o acaso e o encontro. Parece que o acaso, tal qual a intimidade dos cães, acontece nas sombras, quando coisas imaginárias decidem mostrar a força de sua presença.

(La voz de Verónica)
– Achaba interesante grabar tocando materiales del entorno natural, y que si quería, podemos juntar nossas sesiones de grabación. Comenzamos a juntar folhas secas, ramas, sementes y todo cuanto encontramos no caminho.

Gravando. Tá: nos movemos ao longo da sala – biblioteca –, o piso range, passos no teto, sons que vêm de fora. No chão, como pedra, um haicai que ressoa: perdida nos bosques / apenas um som de folha / cai no meu chapéu. Imagino sons, microfone de contato embaixo da cadeira. Sinto já ter estado assim, não bem ali, mas lá, nesse lugar, um transe. O tempo passa lentamente, um silêncio enche o ar, palha batuca tímpano. Bem mais: grãos de pimenta – satélites – rolam na curva da cadeira, mundos se fazem e desfazem. Cá fora, lá dentro, a boca de Verónica estala, baixinho. Sopro uma flauta de bambu, um vento que vai, novo e longe (novo e longe). Sem perceber, inventamos um lugar, abrimos as janelas. Saio cansado, médium sem rumo. Escutamos.

Já é noite fria, tomo banho, a luz acaba, Gambiarra faz som numa fogueira apagada. De madrugada, um grupo vai ao lago. Formigas se incomodam com o barulho, bichos calam. Um microfone, quase nas águas, nada, mudo. Enquanto amanhece, tentamos gravar o mundo, impassível. Espero com Laura: debaixo de uma figueira ancestral. O dia raia, um bicho rosna, faz medo, volto pra cama.

Tomo café. Tal qual o ovo da primeira galinha, é possível que o acaso tenha gerado o primeiro encontro, que, por sua vez, gera, até estes tempos, outros acasos e outros encontros, outros tempos. Ou, talvez, como onda que sobe e desce em uma frequência dada, não haja coisas primordiais, mas acasos e encontros recorrentes, vibrando como que eternamente, ruído de fundo em som gravado, bater de asas grave de um fronte-violeta. Escuto e vejo o tempo grávido, projetado na parede.

 


Tento seguir o fluxo: há uma cachoeira aqui. Borboletas pousam em obras imaginárias (é sério). Viveiros: onde, quando água corre, não há espelho pra narciso. Às vezes escrevo (desenho) – coisas que não entendo, traços, ideogramas, gravetos. Uma luz de manhã banha, como água, essas águas. Coisas já tomam forma, sentido, para além do que prevejo, planejo, arpejo. Seria eu bicho, espécie de músico? Ou instrumento? Tento seguir o vento, a correnteza. Me agacho ao chão (água), fecho os olhos cheios d'água, encho as bochechas d'água, esguicho às pedras (água), me chamo chafariz (de sons). 

Tudo vibra. As coisas, terra, folha, bicho, gente, água: cada uma tem o seu pulsar e nada pulsa só. Há pontes que balançam e caem porque vibram junto com o vento que vem. Coisas todas, ar, fogo, luz, calor, o latido de um cão e ele mesmo vibram.

Este lugar também pulsa, tem um nome, um tempo, uma repetição de vibração: ão-oão, como um ohm em outras índias. Uma mesma intenção — esse som — pulsando entre dúzias de bichanos que andam em pé. Coço as canelas (carrapato), há um chacra, aberto, um ashram, em cada garganta. Eis um mantra: tal qual taça de vidro, vibro. Outro: mi voz, yo la llevo conmigo. Escuto falas como quem espia crateras de onça (dança), pegadas na lua (loa). Olho no telescópio: um símbolo: um som: são.

Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Uma barcarola. Um rio preto cheio de ruído jorra, sem rumo, das tábuas da sala. Pedro raspa o estilete na pele de um bicho, que ruge baixo desde sempre, quase. Tudo vibra. Nas mãos, um livro encharcado e o pensamento antigo. Navegamos, que a vida é cigana.

(A voz de Vitor)
– Diferença entre prazer e felicidade. Parece-lhes que o prazer difere da felicidade, porque o fim é o prazer particular. A felicidade é o sistema dos prazeres particulares, aos quais somam-se, também, os passados e os futuros. E o prazer particular é, por si mesmo, desejável, mas a felicidade não o é, por si mesma, senão pelos prazeres particulares (prazeres particulares).

Definições para música. Algo para se escutar. A síntese da consequência da descoberta do corpo. Diferença e repetição. Ar cheio, sopro quente. Abrir as jaulas, perder-se na mata. Pedra de gelo (ao sol). O surgimento dos pássaros. Correr como caballos. Comer às cegas. Colher café, grãos no chão. Peneirar o som. Um talismã.

No escuro de um curto vale, bestas se reúnem, em roda, num sabá de sabiá. Feitiço de ouvido, espectro de som, choro e urro, aboio pra lua, quase quase-cheia. Fogo na cachoeira. Tomamos sopa na cozinha. Com gravetos nas mãos, aquele monstro que dormia agora ruge. Bato, espedaço um bambu no couro do ferro. Toda linguagem es un estábulo: berro na rédea, espora na boca (cavalgadura), contra o trote livre galope sem sela nem ferradura.

Quando o sol desmaia, tenho pesadelos retumbantes. Sinto saudade. À beira d'água, numa mesa, escutamos a correnteza, enquanto o tarólogo vê o tempo que passa e me tira cinco cartas. A torre: outra língua, casa ruindo, pedra sobre pedra. A sacerdotisa: outro homem, segredos à tona, dobra sobre dobra. O mundo: fim de tudo, outro encontro, sobra sobre sobra. A roda da fortuna: eterno retorno, outro acaso, cobra sobre cobra. A morte: outro nome, despedida, boca sobre boca.